Conheça a história da Gruta Nossa Senhora de Lurdes

  • Publicado em: 20/06/2016 às 14:53   |   Imprimir

A gruta fica na localidade de Linha Ilha, em São José do Inhacorá, 2.5 km da cidade.

 

A  Gruta Nossa Senhora de Lourdes,  foi inauguradaem 22 de junho de 1958. É um belo local e dista da cidade cerca de 2.5 Km. Em contato com moradores de São José do Inhacorá, e segundo informações com o senhor Gerônimo Graeff, morador da localidade de Linha Ilha, filho do descobridor da gruta, relata através de entrevista a seguir, alguns detalhes:

Como foi descoberta essa gruta?

Gerônimo - Vieram morar aqui alguns parentes, e abriram uma picada, um caminho que fosse mais curto. Cada domingo eu e o pai (desbravador) íamos à missa a cavalo, e ali perto do trilho por onde passávamos havia sempre um lugar molhado. A estrada de antigamente era mais ou menos no mesmo lugar da atual.

Lembro que um dia quando voltamos da missa, o pai viu um quati naquele lugar. Fomos até na nossa casa, e depois o pai voltou lá. Achou quati, jacu, até tatu tomando água naquele pequeno poço.

A laje por si tinha uma abertura de uns 80cm. Não se via o que havia dentro, pois era muito escuro, mas tinha água. Aí o pai contou isso para o frei Florino Ferhaguen, que vinha volta e meia passear aqui em casa.

O frei também foi ver esse lugar. A laje aparecia um pouco, mas a terra na frente tampava boa parte dela. O pai pegou o enxadão e abriu uma valeta, e logo correu aquela água. Aquele poço não terminava. Via-se que lá de cima da laje estava correndo água, água que saía da laje. Depois da descoberta foram até a prefeitura de Três de Maio para pedir uma esteira e limpar a parede de pedras. Veio uma esteira pequena, uma das primeiras que a prefeitura tinha. Começaram a empurrar a terra e os arbustos até aparecer a gruta, do mesmo jeito que ela está hoje.

Com essa descoberta, o frei Florino e o seu ajudante Alberto Froelich foram investigar com os diretores da ordem de são franciscanos e foram atrás para ver o que poderia ser feito nesse local. Com isso vieram mais pessoas, inclusive o bispo, visitar e olhar o lugar e decidiram construir algo ali para torná-lo conhecido, pois se tratava de algo diferente e bonito.

Qual a reação dos moradores diante do achado?

Gerônimo - Os moradores se colocaram a disposição para ajudar no que fosse preciso. O terreno foi doado pelo proprietário da terra, o senhor José Manoel Thomas, o chefe da obra foi Fredolino João Martini e o Frederico Graeff (meu pai) entrou com o material: tijolos, areia, cimento. E começaram o trabalho.

E depois da construção pronta?

Gerônimo - Depois ficou aquilo ali feito. O próximo passo foi ir atrás de imagens, estátuas. Aí o Frei Victor Malmann, que era o vocacionado naqueles anos buscou informações e trouxe essas imagens, de São Paulo ou Rio de Janeiro, não lembro ao certo. As imagens que estão hoje na gruta, são as originais. Elas estão lá desde o início. Já foram restauradas por um acidente que ocorreu a alguns anos, mas ainda são as originais.

Como eram as celebrações na gruta antigamente?

Gerônimo - Como ficou um lugar bonito, resolvemos de nos reunir no local. Juntavam-se aproximadamente 100 pessoas, essas reuniões foram realizadas em maio e outubro. Antigamente aqui na localidade e arredores haviam muitos moradores. Todos os moradores vinham,  cada noite, nos meses de maio e outubro, fazer reza na gruta. No mês de maio era a época da colheita de soja. O tio José Thomas tinha trilhadeira e trilhava soja para fora, nas propriedades dos vizinhos. Ele poderia estar num vizinho mais distante trabalhando, parava o serviço e vinha puxar a reza. Os filhos levavam o livrinho e o terço para ele, só lavava as mãos numa casa por onde passava e vinha lá fazer a reza. E todo mundo cantava. Depois da reza ele ia para o serviço de novo. E assim acontecia todas as noites, durante todo o mês, em maio e outubro. Chovia ou não chovia, estávamos lá. Se numa noite chovia demais, daí a reza era feita numa casa mais próxima. Mas não falhava uma noite. E tinha muita juventude aqui. Eram muitos jovens, pois cada família tinha de 7, 8 filhos, ou mais.

 Anualmente a missa de aniversário da gruta era feita no local, e a festa era na casa dos meus pais. Como não tinha como fazer festa lá na gruta era feito aqui. E assim continuou por vários anos. Mas foram mais de 12 anos.

Foram feitas mudanças no local no decorrer dos anos?

Gerônimo - A gruta foi sendo ampliada aos poucos. Faz uns 25 anos que aumentamos uma parte para a frente. Agora temos planos de construir uma rampa para acesso por pessoas com dificuldades de locomoção, além de ampliar e melhorar as instalações.

E a água que escorre pelas pedras da gruta, é permanente?

Gerônimo - A água que escore das pedras nunca terminou, somente diminui. No inverno, quando chove bastante, a água corre com um volume maior. Acredito que tenha uma “bacia subterrânea” acima da gruta, pois além do mato, mais para cima é lavoura. Como o local fica mais no alto, a água está diminuindo aos poucos. Antigamente, como tudo era mata, a água ficava mais tempo conservada. Hoje pelo cultivo das terras, essa água não permanece mais tanto tempo no solo. Pode ser essa uma das explicações para que a água que escorre pelas pedras da gruta esteja diminuindo de volume.

Como era a participação das pessoas antigamente, em missas, procissões e festas?

Gerônimo - Quando tinha festa, o pátio da nossa moradia enchia de gente. A estrada ficava praticamente fechada com os carros estacionados. Vinham pessoas de Três de Maio, Horizontina, Independência, São Martinho e até municípios mais distantes. Sei que para fazer o almoço, carneavam um boi de 300 quilos, e dava mais ou menos carne suficiente para fazer o almoço para o pessoal. As churrasqueiras eram improvisadas no chão e os espetos feito com galhos de árvores tirados no mato. O pessoal comprava um espeto, sentava na grama e almoçava, pois não tinha como arrumar mesa para todas as pessoas.

E como é a participação das pessoas hoje nas procissões e festas?

Gerônimo - Ultimamente poucas pessoas participam dessas celebrações. Parece que as pessoas não acreditam mais, não tem mais tanta fé como tinham no passado. Quando o frei Raimundo era vigário aqui na paróquia, ele vinha junto com a população para a gruta nos dias de reza. Aí vinha uma multidão de São José. Vinham pessoas de todos os lados no município, e se encontravam na gruta.  Hoje, parece-me que o povo não tem mais tanto interesse em fazer procissões e rezas. Não é mais aquela fé que o povo tinha antigamente. Naquele tempo ainda não havia o Município de São José do Inhacorá, era ainda pertencente a Três de Maio, mas já era um distrito e tinha uma paróquia. A paróquia aqui tem mais de 60 anos.

Reivindicação da comunidade

Em contato com o prefeito municipal de São José do Inhacorá, Eliseu Schenkel, recebi a informação de que o poder público irá auxiliar, no que estiver dentro da lei, nas melhorias que estão sendo planejadas para a gruta, como a rampa de acesso para pessoas com dificuldades de locomoção e reformas no espaço físico, pois houve uma reivindicação por parte da comunidade. Por ser um ponto turístico da cidade, a administração municipal tem por objetivo a conservação do local.

O nome “Gruta Nossa Senhora de Lourdes

 A escolha do nome envolve outra história. Segundo Gerônimo, o frei sempre falava da história de Nossa Senhora de Lourdes de Portugal, e da menina Bernardete (Aliás, a imagem que está ao lado da Nossa Senhora de Lurdes na gruta é dela). Conta a história que a Nossa Senhora de Lourdes surgiu para a Bernardete, uma menina que estava juntando gravetos.

Pesquisando sobre a história, descobri que as aparições de Nossa Senhora de Lourdes começaram no ano de 1858 em Lourdes, uma pequena cidade localizada no sudoeste da França, quando Bernadette Soubirous, uma camponesa com 14 anos, afirmou ter visto uma "dama" na gruta de Massabielle, cerca de uma milha da cidade, enquanto ela estava recolhendo lenha com a irmã e um amigo. A "dama" também apareceu em outras ocasiões para Bernadette até os seus dezessete anos. Sua família era muito pobre. Esta jovem sofria de asma e tinha tendência à tuberculose. Foi uma moça quase sempre doente.

Relatou ainda o senhor Gerônimo, que segundo contava o Frei, naquela gruta também há uma fonte de água corrente, que nunca seca. Pela semelhança da água e pelas paredes da gruta, foi optado pela colocação da imagem da Nossa Senhora, da menina Bernardete e chamá-la de gruta Nossa Senhora de Lourdes.

Fonte: Essa pesquisa/levantamento e entrevista, foi realizada pelo pesquisador VANDERLEI HOLZ LERMEN, no ano de 2013 e aplicada ao morador Gerônimo Graef, municipe inhacorense e filho do descobridor da Gruta.